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Como criminosos simulam doenças para escapar da prisão

Fingir estar doente para evitar ir parar atrás das grades é algo surpreendentemente comum. Mas há alguns recursos para identificar casos reais dos falsos – ainda que esta não seja uma ciência exata.

Ele era conhecido como “O Estranho Chefão”. Líder de uma família de criminosos genovesa de Nova York e uma das figuras mais influentes da máfia de seu tempo, Vincent Gigante fingiu insanidade por mais de três décadas para evitar a prisão, perambulando pelo bairro de Greenwich Village usando roupão e chinelos.

“Ele parava abruptamente, apontava para alguma coisa e começava a resmungar. Se tivesse certeza de que estava sendo gravado ou filmado pelo FBI, ele exagerava ainda mais”, disse sua sobrinha, Rita Gigante, em uma entrevista ao jornal New York Post.

Às vezes, ele perguntava aos parquímetros se eles se juntariam a ele em uma caminhada. Os agentes do FBI chegaram certa vez com uma intimação e encontram Gigante em pé e nu sob o chuveiro, segurando um guarda-chuva aberto.

O que Gigante estava fazendo é conhecido em inglês como “malingering”, um termo que descreve o ato de simular sintomas de uma doença ou exagerar aqueles já existentes, com uma segunda intenção em mente. Isso inclui desde obter uma compensação financeira, moradia ou drogas a evitar ter de ir ao trabalho, cumprir dever militar ou responder a um processo na Justiça.

Isso não é uma novidade. Davi fingiu loucura na Bíblia para escapar da ira do Rei Aquis. Ulisses adotou uma abordagem semelhante para tentar não ser convocado para a guerra, ainda que sem sucesso.

Esta prática é comum no sistema prisional. Em um estudo realizado pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, com 879 participantes, em 17,5% dos casos em que o acusado foi considerado incapaz de ser julgados (e, portanto, enviado para um hospital psiquiátrico em vez da prisão), foi depois identificado que os sintomas eram falsos.

Na vida real, James Lindsay, acusado de assassinar Emma Thomson, de 15 anos, afirmou ter esquizofrenia paranóica, ao dizer aos médicos que o diabo havia dito a ele para matar uma mulher ruiva.

O tribunal soube de seu fingimento por meio de uma carta enviada a um amigo enquanto ele aguardava julgamento: “Tenho um plano inteligente para ir para o Hospital Carstairs e ser libertado depois de oito anos. Se eu for para a prisão por assassinato, vou receber a prisão perpétua”. Considerado culpado, Lindsay foi sentenciado à prisão perpétua.

Os desafios para identificar sintomas simulados

Ainda que isso possa ser relativamente comum, identificar uma simulação é notoriamente difícil.

Sintomas simulados são frequentemente os mais difíceis de se avaliar. Não há exame de sangue ou exame cerebral para confirmar alucinações causadas por esquizofrenia, por exemplo.

O “Estrangulador de Hillside”, Kenneth Bianchi, simulou um distúrbio de personalidades múltiplas (agora denominado transtorno dissociativo de identidade) para culpar seu alter ego “Steve” pelos assassinatos que cometeu. Sua farsa acabou sendo descoberta, mas não antes de “psiquiatras ingenuamente engolirem sua história”, como concluiu o juiz do caso.

A detecção da simulação começa por uma busca por exageros, contradições e inconsistências. Por exemplo, você deve suspeitar de alguém que relata alucinações auditivas debilitantes, mas não diz se sentir perturbado por elas. Cuidado com o ladrão de bancos que descreve a visão de “um gigante vermelho que esmaga as paredes” com notável compostura.

Outro alerta é um suspeito que endossa sintomas improváveis, como responder sim à pergunta: “Você já acreditou que os automóveis são membros de uma religião organizada?”

Pessoas assim afirmam muitas vezes ter perdido o contato com a realidade. Mas suas alucinações podem parecer muito convenientes, como o homem acusado de tentativa de estupro que alegou que uma voz lhe dissera para “cometer um abuso sexual”.

Há outras diferenças que os médicos podem identificar entre episódios de psicose genuína e os falsos.

Na psicose genuína, as alucinações auditivas são geralmente intermitentes (mesmo que haja uma sensação de que elas estão sempre pairando no fundo da mente) e os pacientes podem às vezes resistir aos comandos se não estiverem em um estágio agudo da doença.

Em contraste, os simuladores frequentemente relatam alucinações contínuas e dizem que são obrigados a seguir todas as instruções. Pessoas com alucinações genuínas tipicamente relatam que as vozes se repetem e podem identificá-las, são tanto masculinas quanto femininas (em três quartos dos pacientes), falam a mesma língua que eles (em 98% dos casos) e se originam em suas próprias cabeças (em 88%).

Por outro lado, uma representação atípica pode incluir: vozes não identificáveis, ​​de apenas um gênero (ou de um gênero que muda no meio da frase), de uma criança ou que soa como de um robô ou um animal. Essas características levantam suspeitas de simulação, mas não confirmam isso.

Relatos de alucinações visuais trazem pistas semelhantes. Na esquizofrenia, geralmente são em cores e de tamanho natural (sejam figuras religiosas, membros da família, animais), mas os simuladores tendem a relatar detalhes exagerados: “Acabei de ver o Grande Pássaro… Ele tinha cem metros de altura!”.

Pacientes em abstinência de álcool ou com degeneração macular ou esquizofrenia podem ter alucinações com figuras pequenas (animais ou pessoas), como nesta descrição genuína feita por um alcoólatra de 25 anos: “Eles tinham cerca de 30 centímetros de altura, com divertidos vestidos coloridos, rostos estranhos, olhos e bocas grandes. Alguns deles também usavam óculos”.

Portanto, mesmo com essas regras gerais, identificar a psicose genuína continua sendo um desafio. Um único elemento fora do padrão não confirma um fingimento, mas cada um aponta, no contexto certo, para essa possibilidade. Também é vital não presumir fingimentos e deixar de identificar um distúrbio mental autêntico – sem mencionar que ambos podem coexistir.

Exames e testes

Para se ter certeza, o próximo passo é realizar um teste psicológico. Uma premissa básica pode ser surpreendente: alguns testes de memória e reconhecimento são tão fáceis que, se o examinado se sair mal, pode estar tentando fracassar propositalmente.

Na forma mais utilizada desses testes de validade de sintomas, um entrevistado escolhe entre duas respostas possíveis. Um resultado “pior do que a média” (Preocupações éticas

Eles também levantam questões sobre possíveis violações de direitos constitucionais e humanos por potencialmente constituírem uma forma busca de pistas ilegal ou violar o direito “a privacidade, de permanecer em silêncio, de liberdade de pensamento e a um julgamento justo”.

Essas preocupações éticas se estendem aos médicos: eles deveriam estar realmente atuando como caçadores de mentiras profissionais? Estes profissionais não são treinados ou têm a competência necessária para determinar se um paciente tem consciência de quaisquer inconsistências ou uma intenção consciente de enganar alguém.

Em última análise, o tribunal deve decidir sobre os motivos e a credibilidade do réu, embora as opiniões médicas especializadas sejam cruciais para essa decisão. Como a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu sobre a admissibilidade da prova de polígrafo em 1998, “uma premissa fundamental de nosso sistema criminal é que o júri é o detector de mentiras”.

Gigante foi condenado em 1997 a 12 anos por extorsão e conspiração para assassinato. Em 2003, ele admitiu que estava fingindo psicose quando informantes de várias organizações mafiosas lançaram dúvidas sobre sua condição e promotores apresentaram evidências de que ele falava lucidamente com seus visitantes na prisão e administrava dali os negócios da máfia “de forma coerente, cuidadosa e inteligente”.

Os dias de simulação de Gigante acabaram. Mas ele enganou uma série de médicos ao longo dos anos, sendo internado 28 vezes em hospitais psiquiátricos, com diagnósticos de esquizofrenia e até mesmo “demência derivada de danos cerebrais”.

O juiz concluiu: “[Gigante] é uma sombra do seu antigo eu, um homem idoso que finalmente foi derrotado em seus anos finais após décadas de cruel tirania criminosa”.

Gigante morreu em 2005, aos 77 anos. Ele dificilmente foi o último criminoso a tentar escapar da prisão desta forma. Mas talvez poucos, no entanto, consigam evitar a Justiça por tanto tempo quanto “O Estranho Chefão”.

Fonte: G1.Globo

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